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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

REVISTA BILROS - HISTÓRIA UECE



 

REVISTA BILROS – HISTÓRIA UECE

v. 1, n. 1 (2013)

Sumário

Artigos

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Francisco José Gomes Damasceno


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Elis Regina Barbosa Angelo


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Ana Luiza Rios Martins


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Erica Souza Pinto

Entrevistando

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Danielle Almeida Lopes

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Aspectos intertextuais em Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna

por Ederval Fernandes Amorim*
Fonte: http://literatura.uol.com.br/literatura/figuras-linguagem/47/aspectos-intertextuais-em-auto-da-compadecida-de-ariano-suassuna-290905-1.asp
  

O escritor pernambucano Ariano Suassuana, autor de obras como Romance d’A Pedra do Reino, A pena e a lei e Auto da compadecida, utiliza-se com frequência do recurso de intertextualidade para realizar uma de suas características centrais como criador e literato: a constante referência a obras e noções estéticas do passado, originárias, sobretudo, da cultura medieval ibérica, empregando-as e reelaborando-as junto a aspectos da cultura popular brasileira e preocupações estéticas, históricas, políticas e sociais próprias do seu tempo-histórico; a bem dizer, a modernidade. Este recurso da intertextualidade entre tradições européias e a incipiente cultura brasileira foi defendida aqui no Brasil pelo movimento modernista. Escritores como Mário de Andrade e Oswald de Andrade pregavam o antropofágico cultural.
A noção central de intertextualidade que irá nortear este ensaio vem primeiramente de Mikhail Bakthin, teórico russo que, no começo do século XX, foi um dos pioneiros ao estudar e desenvolver uma teoria acerca da intertextualidade (ou melhor, dialogismo) entre obras e autores.
Estas relações intertextuais foram estudadas pelo filósofo russo sobretudo no âmbito da literatura e da linguística, em obras de François Rabelais e Fiódor Dostoiévski. Tais ideias foram posteriormente problematizadas e desenvolvidas por outros teóricos, como Julina Kristexa e Robert Stam, com uma aplicabilidade mais ampla, juntamente com a ampliação do conceito de texto, que passou a incorporar linguagens não apenas verbais. Aliás, o termo “intertextualidade”, o qual o filósofo Bakthin não formulou, usando sempre o termo “dialogismo”, foi criado a partir dessa nova dimensão que o termo “dialogismo” tomou com o desenvolvimento e aplicabilidade menos restritas ao plano literário e linguístico.
O dialogismo (ou intertextualidade) para Bakthin, em linhas gerais, é compreendido como uma referência ou uma incorporação de um determinado elemento discursivo a outro, podendo-se reconhecê-lo quando um autor constrói a sua obra com referências a textos de outras obras e autores e até por si mesmo, o que proporciona uma forma de reverência e de complemento do sentido deste texto. Para Bakhtin, um texto não subexiste sem o outro. Seja como em forma de atração ou forma de rejeição, o que permite que invariavelmente ocorra um diálogo entre dois ou mais discursos. Por isso, o dialogismo ou a intertextualidade pode também ser compreendido como uma série de relações de vozes, que se intercalam e se orientam por desempenhos anteriores de um único autor e/ou autores diferenciados, originando um diálogo no campo da própria língua, da literatura, dos gêneros narrativos, dos estilos e até mesmo de culturas diversas.
A ocorrência intertextual dá-se principalmente em três processos: a citação, a alusão e a estilização. A citação pode confirmar ou alterar o sentido de um discurso mencionado. Esta se estabelece ao mostrar a relação discursiva de maneira clara e todo discurso citado é uma voz dentro de outra voz já existente. A alusão, no entanto, não se faz como uma citação explícita, mas como uma reprodução construída a partir da ideia central de algo já discursado. Já a estilização é uma maneira de reproduzir os elementos de um discurso já existente com o intuito de reestilizá-lo.
O dialogismo ou intertextualidade é uma série de relações de vozes, orientadas por desempenhos anteriores de outros autores, originando um diálogo de discursos, línguas, estilos, culturas
Os discursos modernos e pós-modernos tendem a ser polifônicos (ou seja, com uma pluralidade de vozes) e se relacionam com o presente e o passado, concebendo-se como uma montagem que é alcançada por meio da fusão de elementos oferecidos por outros discursos diferentes, sem, contudo, perder a singularidade de cada um deles, afirmando assim o seu caráter intertextual para atingir seus objetivos.


Para Robert Stam, existe a possibilidade de uma relação entre a arte moderna brasileira e a intertextualidade. A noção de antropofagia defendida pelos modernistas brasileiros, sobretudo pelo chamado “grupo paulista”, pode ser caracterizada como uma ocorrência intertextual, por não ignorar as influências européias; pelo contrário, assimilá-las em um processo de incorporação, reversão e reordenação de seu próprio estilo. Tal como foi preconizada por modernistas como Mário de Andrade e Oswald de Andrade, a antropofagia pode ser interpretada como a contribuição brasileira para o conceito geral de intertextualidade. A antropofagia modernista brasileira simplesmente admite a inevitabilidade da ocorrência intertextual, pois o artista de uma cultura dominada não pode ignorar a presença estrangeira; é preciso que dialogue com ela, que a incorpore, que a refaça e a revitalize de acordo com objetivos nacionais.
ARIANO SUASSUNA
Particularmente interessado pela cultura ibérica, e sendo, também, muito envolvido com a cultura popular brasileira, sobretudo a nordestina, o escritor pernambucano Ariano Suassuna criou em seu Auto da Compadecida, peça teatral de 1955, um complexo jogo de intertextualidade que inclui a estilização do auto como estilo literário, a alusão e estilização de preceitos estéticos do romance picaresco medieval, referências a autores dramáticos de relevo universal como o britânico William Shakespeare e a manifestações da cultura popular brasileira, em particular a literatura de cordel.
Conquanto nos pareça difícil definir o auto como gênero literário, principalmente pelo o caráter genérico deste termo na Idade Média para denominar qualquer tipo de peça teatral, podemos, contudo, observar algumas características centrais. O auto geralmente é uma peça teatral curta, de apenas um ato, em que predomina a temática religiosa, cujo julgamento moral é prática recorrente. Os personagens de um auto são criados a partir de personalidades caricaturadas, arquétipos, quase sempre maniqueístas: o “bom” e o “mau”; o “pobre” e o “rico”.
Suassuna aplicou na sua peça Auto da Compadecida alguns dos meios estilísticos deste gênero tradicional, pois percebemos por toda peça a advertência acerca da usura e pela busca desesperada e intransigente por dinheiro e poder. Agora, por não compactuar com uma visão de mundo maniqueísta, característica, como vimos, dos autos medievos, Suassuna relativiza tanto a moral quanto seus detentores. A Igreja, representada na Idade Média como bastião da moralidade e dos valores cristãos, imune, portanto, a qualquer corrupção ou qualquer outro ato de natureza vil, no Auto da Compadecida aparece nas figuras do vigário e do bispo não como arquétipos morais, mas como seres humanos capazes de atos sórdidos e sublimes, como todos os outros personagens da peça. Nesse sentido, Suassuna não busca denegrir a Igreja como instituição, mas lembrar que, por trás das instituições, há o ser humano com todas as suas complexidades e paradoxos. Portanto, Suassuna utiliza-se do auto como gênero, porém reestilizando-o de modo a criticar seus preceitos maniqueístas e caricaturais.

Uma associação dos personagens João Grilo e Chicó com os anti-heróis dos romances picarescos, ainda que seja óbvia, se faz necessária para sabermos de que maneira o autor Ariano Suassuna buscou falar dos problemas de seu tempo através de formas literárias há muito consagradas e que, por seu caráter original e universal, foram fonte de influência em pleno século XX. Apesar de utilizarem artifícios enganosos e burlescos para sobreviver, João Grilo e Chicó são redimidos de qualquer culpa no juízo final por ser de compreensão da Santa Compadecida que estes personagens só agiam assim porque eram impelidos pelas circunstâncias de opressão e sub-existência a que estavam socialmente enquadrados. Sendo que os supostos guardiões do poder, da lei e dos valores morais, figurados no auto como os comerciantes (o padeiro e sua mulher), a polícia e a igreja (o padre e o bispo), são os verdadeiros responsáveis pelas situações adversas a que personagens típicos como Chicó e João Grilo passam, são eles que devem pagar pelos atos enganosos destes dois “pobres-diabos”.
Outro recurso estético que o autor pernambucano usa em sua obra é o de incorporar elementos e até mesmo histórias da literatura de cordel na trama de seu auto. Esta escolha é extremamente feliz porque coerente com a linhagem literária que o Auto da Compadecida se propôs percorrer. Sabemos que a literatura de cordel, embora seja símbolo de nossa cultura popular, traz em sua origem elementos da cultura ibérica, especialmente da idade média, daí sua ligação com a literatura trovadoresca e também com a literatura picaresca. Temas absurdos e jocosos são incluídos no auto como o enterro da cachorrinha da dona da padaria e o gato que “descome”, conhecidos na literatura de cordel pelos cordéis O enterro do cachorro e O cavalo que defecava dinheiro, ambos de Leandro Gomes de Barros (1865-1918).
Apesar de ser um texto que alude formal e tematicamente a um gênero característico da idade média, Auto da Compadecida traz em seu bojo um amplo leque de intertextualidade que dispõe de diversos procedimentos estéticos culturais e literários, que perpassam séculos e nichos sociais, indo da moral cristã medieva à sabedoria popular, passando por personagens do pícaro espanhol medieval até a noção modernista da arte brasileira como um procedimento antropofágico.
Ederval Fernandes é é graduando em Letras Vernáculas na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e bolsista pesquisador no projeto Imagens Urbanas na Literatura Brasileira da UEFS/PROBIC.