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sábado, 27 de março de 2010

Ícone do rock brasileiro, Renato Russo faria 50 anos neste sábado











      Neste sábado (27) Renato Russo completaria 50 anos de idade. O cantor e compositor morreu no dia 11 de outubro de 1996 de complicações de saúde decorrentes da AIDS.

Com a banda Legião Urbana, surgida em 1983 e que tinha ainda o guitarrista Dado Villa-Lobos e o baterista Marcelo Bonfá na formação, Renato Russo se transformou em um dos principais ícones do rock brasileiro das últimas três décadas.

      O grupo conquistou uma multidão de fãs ardorosos com músicas hoje consideradas clássicos do repertório pop nacional como "Será", "Geração Coca-Cola", "Que País é Este?", "Eduardo e Mônica" e "Faroeste Caboclo", entre outras, cujas letras podiam trazer críticas à sociedade brasileira ou histórias centradas em relacionamentos.
      Com o grupo, Renato gravou oito álbuns. Em 1994, o cantor lançou seu primeiro disco solo, "The Stonewall Celebration Concert", que seria seguido por mais dois títulos: "Equilíbrio Distante" (1995) e "O Último Solo" (1997). Em 2003, foi lançado o disco "Presente", sucedido pelo disco "Trovador Solitário" (2008), com gravações até então inéditas do cantor.
      Ainda hoje, quase 14 anos após sua morte, Renato Russo mantém-se como um ídolo em todo o país. Os admiradores de sua obra fazem parte da geração que acompanhou o surgimento da Legião Urbana, ainda no começo da década de 80, e também os adolescentes de hoje, nascidos naquela época.
Em 2009, a gravadora da Legião Urbana, a EMI, desmentiu boatos de que Dado e Bonfá reformariam a banda. No começo de 2010, a gravadora anunciou que pretende relançar a discografia da Legião em vinil. Os discos ainda não têm data de lançamento definida.

      No sábado em que se comemora o aniversário do cantor, chega às lojas a compilação "Duetos", com gravações de Renato ao lado de nomes como Dorival Caymmi, Herbert Vianna e Leila Pinheiro. Uma das canções do álbum é "Like a Lover", dueto póstumo com Fernanda Takai que é uma versão em inglês para a música "O Cantador", composta por Dori Caymmi e Nelson Motta e gravada por Sergio Mendes nos anos 60.
      Outra homenagem ao cantor acontece no programa "Altas Horas", da Rede Globo. Na atração, O guitarrista Dado Villa-Lobos e o baterista Marcelo Bonfá vão se apresentar juntos na TV pela primeira vez desde o fim do grupo, em 1996.

Renato Russo: Paulo Ricardo fala sobre sua amizade com o cantor


      "Você precisa ouvir essa banda, eles tem umas letras bem legais", e lá fui eu com minha amiga Patrícia Andrade e nossa turma de modernos assistir à tal Legião Urbana de Brasília no Centro Cultural de São Paulo, numa tarde cinzenta de primavera em 1984.

      O trio era bem interessante, um punk pop arrumadinho, e a voz potente e afinada do baixista barbudo de óculos me deixou muito bem impressionado. Dali saímos para uma longa noite perdida em alguma prateleira das minhas lembranças, mas era, como naquele célebre diálogo de "Casablanca", o início de uma bela amizade.
      Nossos encontros em camarins de programas de TV, como "Chacrinha" e "Milk Shake", eram constantes e permeados daquela típica euforia dos vinte e poucos anos, da troca de figurinhas de bandas novas e antigas, e dos nossos planos ambiciosos de dominação das ondas do rádio. Legião e RPM lançaram seus primeiros álbuns em 1985, e o que se via adiante era uma freeway cheia de som e fúria. Foram momentos inesquecíveis que guardo como uma coleção de vinil.
      Em poucos meses estávamos ambos numa posição de destaque na cena pop rock, e a revista "Bizz" nos convidou, eu e Renato, para uma matéria na qual entrevistaríamos um ao outro. Dali surgiram afinidades e a declaração de Renato a respeito da canção "A Cruz e a Espada", que ele confessou adorar, tentando entender o que eu queria dizer com aqueles versos. Só algum tempo depois percebi que ele havia se identificado com o dilema do desejo que "se perdeu de mim", e sairia do armário, por influência decisiva de Cazuza. Em 96, Renato regravaria esta canção comigo no meu CD "Rock Popular Brasileiro". Mas já falo disto...
      Em 86, após um show do RPM no Gigantinho, a banda assistir a Legião, e naquela noite fizemos nossa única jam, com Luiz Schiavon tocando baixo em "Rádio Pirata". De lá pra cá passamos a nos falar constantemente. Em 87, com Cazuza já em carreira solo, tivemos os três um encontro antológico no Barão com Joana, em Ipanema. Nos vimos e ficamos horas e horas nos abraçando, gritando e pulando como crianças. Essa polaróide ainda me leva às lágrimas. Seria o fim de uma era.
      Diante da coragem de Cazuza ao enfrentar de peito aberto e publicamente sua luta contra a AIDS, Renato foi se sentindo constrangido e forçado a assumir sua homossexualidade, o que, naquele ponto, já não faria muita diferença na adoração messiânica de seus fãs (termo que Herbert Vianna adorava repetir quando se referia à Legião) . O que não se sabia é que naquele mesmo ano Renato contrairia o vírus daquela "big disease with a little name", como cantou Prince em "Sign 'o the Times".
      Em1996 voltei a morar no Rio, e pude sair mais com Renato, no auge de sua loucura, como se disputasse com Cazuza, ambos arianos, cheios de sede de viver, o troféu de "party animal #1". E olha que naquela época ainda tínhamos Lobão no páreo! Mas quando o convidei para participar de meu CD, ele, com a doçura e sensibilidade que poucos conheceram, me presenteou com um dos momentos mais emocionantes de minha carreira. Fui buscá-lo em seu apartamento em Ipanema, a maior coleção de CDs que já vi. Ele me esperava de bermudas e camisa florida, um anti-Magnum improvável, de sandália havaiana e cara de tédio ( com um T bem grande pra você).
      Nos estúdios da Som Livre foi aquele beija mão e sessão de fotos. E olha que Roberto Carlos e Xuxa também estavam gravando lá. Guardo minha foto com o maior carinho. Cantando e fumando (ao mesmo tempo), Renato se emocionou e emocionou a todos com sua interpretação, ouviu minha versão para "Tempo Perdido" e apostou um jantar que ela chegaria a primeiro lugar nas rádios. Na volta, parecíamos aquela cena de "Wayne's World", cantando "Bohemian Raphsody", e "Dancing with the Moonlit Knight", do Genesis, a plenos pulmões, quando, felizes e cúmplices, Renato disparou, com sua peculiar ironia, "você sabe, né, Paulo, que aqui só eu e você cantamos mesmo". Ele se referia ao rock brasileiro.
      Foi a última vez que o vi, meu Rei Nato. Will be missed.

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